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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Artigo de Reflexão: "O cérebro de um desportista é tão importante quanto as pernas"

Desporto - Investigação

Tema: "O cérebro de um desportista é tão importante quanto as pernas"

Artigo publicado in Jornal Público 17 Julho 2013

Autor: Tiago Pimentel


Qual é o segredo para detectar um atleta acima da média? A combinação certa de talento e preparação física é importante. Mas as capacidades mentais assumem um papel essencial.

Um desportista de topo não se reduz às suas capacidades físicas e ao talento com que foi favorecido pela natureza. Há cada vez mais literatura científica, produzida por especialistas de diferentes áreas de estudo a partir de testes práticos, a explorar a importância das competências intelectuais na prestação desportiva de alto nível. E as conclusões tendem a contrariar alguns preconceitos: cérebro e músculos são tudo menos incompatíveis.

A capacidade de analisar situações complexas, em constante mudança, e decidir muito rapidamente é um dos exemplos de como são importantes as capacidades cognitivas no desporto. Tanto que, segundo alguns especialistas, o futuro da prospecção pode bem passar pela realização de testes neuropsicológicos, em conjunto com a habitual avaliação das vertentes física e técnica.

Um estudo conduzido por uma equipa do Departamento de Neurociência Clínica do Instituto Karolinska de Estocolmo (Suécia), e publicado na revista PLoS ONE em Abril de 2012, abordou a importância da função executiva (“os processos cognitivos que regulam pensamento e acção, especialmente em situações não rotineiras”, explicam os autores) nas prestações de futebolistas de topo. Referindo-se a este conjunto de capacidades como “inteligência competitiva”, os autores consideram decisiva a rapidez de adaptação, a versatilidade na mudança de estratégia e a inibição de respostas. “Estar no lugar certo e fazer a acção certa”, resumiu Predrag Petrovic, um dos autores do estudo, em conversa com o PÚBLICO.

Os investigadores aplicaram a um total de 57 futebolistas (31 homens e 26 mulheres) um teste que avaliou a capacidade de resolução de problemas, criatividade ou inibição de respostas previamente elaboradas. Divididos em dois grupos, consoante actuassem no primeiro escalão ou nas divisões secundárias do futebol sueco, os resultados foram esclarecedores: “Concluímos que o primeiro grupo teve resultados significativamente melhores do que o segundo grupo. Para além disso, ambos os grupos obtiveram resultados muito melhores nos testes do que a população em geral. As conclusões foram semelhantes em indivíduos masculinos e femininos”, pode ler-se no estudo. “Os resultados permitiram prever sucesso, materializado em golos e assistências, sugerindo uma relação causa-efeito entre as funções executivas e o desempenho dos futebolistas”.


Estudos defendem que as capacidades cognitivas são muito importantes na alta competição

A idade é um posto

“Em desportos com bola, como o futebol, há grandes quantidades de informação que os jogadores devem analisar a cada momento. O futebolista de sucesso deve avaliar constantemente a situação, compará-la com experiências anteriores, criar novas possibilidades, tomar decisões rapidamente para agir, mas também inibir rapidamente decisões que tivesse planeado”, explicam os investigadores do Instituto Karolinska. E a experiência é um valor acrescentado. “Demonstrouse que os futebolistas experientes conseguem lembrar e reconhecer padrões de jogo mais eficazmente do que futebolistas inexperientes”, prossegue o estudo. “Os futebolistas de topo são melhores que os dos escalões secundários a prever e hierarquizar as opções de passe disponíveis. Por isso, antecipam eventos futuros de forma mais eficiente”.

O trabalho dos treinadores é decisivo neste aspecto. Num texto publicado no blogue Counter Attack, James Horncastle dava como exemplo as sessões de trabalho das equipas de José Mourinho: “Todos os exercícios são concebidos para reproduzir momentos de jogo e situações específicas para que, em contexto competitivo, os jogadores saibam exactamente o que fazer e onde estar no campo, como defender e como atacar seja em que esquema táctico a equipa ou o adversário alinhe, e de acordo com as circuntâncias do jogo - vantagem ou desvantagem no marcador e com termos numéricos". Com o tempo, estes movimentos passam a ser feitos sem esforço consciente, porque ficaram gravados na memória procedimental (aquela que denomina habilidades como andar de bicicleta ou conduzir), acrescenta o autor.
"Existem diferenças em função das diferentes posições. Em termos do que é requisitado psicologicamente, é muito diferente ser um guarda-redes ou um avançado", destaca o PÚBLICO Jorge Silvério, doutorado em Psicologia Desportiva. "É importante perceber se os atletas foram para guarda-redes ou avançado por terem capacidades cognitivas específicas, ou se a posição é que os obrigou a burilar essas capacidades, Claramente há diferenças em termos de posição que ocupam no campo".
Para além desta distinção em termos posicionais, houve uma evolução na exigência, diz Jorge Silvério: "Antigamente o futebol jogava-se a um nível mais lento. A bola chegava e um organizador de jogo tinha algum tempo ainda para pensar no que ia fazer. Neste momento, antes de a bola chegar, ele já tem de ter arquitectado duas ou três possibilidades do que fazer a seguir, de onde colocar a bola."

Atletas "hiperconcentrados"

Da mesma forma, as capacidades visuais são determinantes na prestação de um desportista de topo, independentemente da modalidade à qual se dedica. Essa é a conclusão do estudo conduzido por Jocelyn Faubert, director do Laboratório de Psicofísica e Percepção Visual do Departamento de Optometria da Universidade de Montreal. O tratamento centrou-se no processamento visual de situações complexas, e o autor termina sem dúvidas: há "claramente algo especial" nos atletas de topo.
Partindo de um teste aplicado a 102 profissionais (51 futebolistas da Liga Inglesa, 21 hoquistas da Liga norte-americana de hóquei no gelo a 30 jogadores de râguebi do TOP 14, a principal competição da modalidade em França), 173 amadores (136 dos programas desportivos universitários dos EUA e 37 de um centro de treinos olímpico europeu) e 33 estudantes universitários não praticantes de qualquer modalidade, a investigação mostrou "uma clara distinção entre o nível de performance atlética e as fundamentais capacidades mentais correspondentes".
A prova consistia numa apresentação tridimensional, com esferas em movimento, e na qual era necessário identificar um determinado número delas, que tinham sido assinaladas antes de começarem a mover-se. Com isto, testava-se a distribuição da atenção por vários objectos em movimento.
"Os objectos profissionais parecem ser capazes de hiperconcentrar-se por curtos períodos de tempo, resultando numa aprendizagem extraordinária ao longo do teste", aponta Jocelyn Faubert. Os desportistas profissionais eram mais rápidos do que os restantes logo no primeiro teste e a curva de evolução da velocidade aumentou significativamente ao longo das várias sessões seguintes.
"Por outras palavras, eles são mais capazes de aprender como interpretar o mundo real em movimento", explicou o investigador. "Os nossos resultados sugerem que a aprendizagem rápida em contextos dinâmicos complexos e imprevisiveis é um dos componentes críticos para prestações de elite", pode ler-se no estudo, que recorda trabalhos de outros especialistas nos quais se identificou que os atletas de alto nível têm uma maior espessura em algumas áreas do córtex cerebral. "Este maior volume anatómico está relacionado com o nível de treino desportivo", nota Jocelyn Faubert.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Artigo de Reflexão: "Mais um Verão em que os clubes vão gastar fortunas em jogadores"

Desporto - Futebol

Tema: "Mais um Verão em que os clubes vão gastar fortunas em jogadores"

Artigo publicado in Jornal Público 12 Junho 2013

Autor: Marco Vaza

O Mónaco já vai em mais de 120 milhões só em três jogadores, o mesmo valor que o Chelsea tem disponível para satisfazer os desejos ofensivos de José Mourinho.

A 11 de Junho de 2009, fez ontem quatro anos, o Manchester United anunciava que tinha chegado a acordo com o Real Madrid para a transferência de Cristiano Ronaldo. Foram 94 milhões de euros que mudaram de mãos naquela que, até hoje, ainda é a mais cara transferência da história do futebol. Quatro anos depois, é pouco provável que este recorde seja batido, mas os milhões vão continuar a circular em grande quantidade, com muitos grandes negócios em perspectiva. Real Madrid, Chelsea, PSG e Manchester City serão os gastadores habituais num Verão em que o Mónaco já agitou o mercado com mais de 120 milhões de euros gastos só em três jogadores.


A crise e o fair-play financeiro não vão abrandar as transferências milionárias no futebol europeu e, com os bolsos sem fundo de alguns clubes, qualquer cenário é possível. Nem o próprio Ronaldo escapa aos rumores, ele que ainda não renovou contrato com o Real Madrid e que, em tempos, disse que estava "triste". Um regresso ao Manchester United é um cenário que os jornais ingleses vão alimentando de tempos a tempos, sendo que também se falou de um possível interesse do PSG. Mas Florentino Pérez já disse que o avançado português faz parte do futuro do Real e não parece estar disposto a deixá-lo sair.

O Real, aliás, parece estar comprador e o seu grande alvo é Gareth Bale. Há quem já dê a transferência como consumada, com os merengues a pagarem cerca de 85 milhões de euros ao Tottenham pelo extremo galês, mas o negócio ainda não está oficializado. A acontecer por este valor, passaria a ser a segunda maior transferência de sempre, apenas atrás de Ronaldo. Mas os madridistas, que ainda não têm treinador (Carlo Ancelotti é o mais que provável sucessor de José Mourinho), também querem mais um avançado e Luiz Suarez é o grande candidato. O uruguaio está com vontade de sair do Liverpool e 37 milhões podem ser suficientes para o contratar.


Quanto ao Barcelona, já fez o seu grande negócio deste defeso, contratando Neymar ao Santos por 57 milhões. Mas, enquanto os catalães vão pensando na forma de encaixar o brasileiro e Messi no mesmo "onze", também querem reforçar a defesa. Mats Hummels, do Dortmund, e David Luiz, do Chelsea, são os nomes mais falados, enquanto a baliza irá precisar de um novo guardião, com a saída anunciada de Victor Valdés.


A Premier League também vai ser um foco de grandes negócios e são longas as listas de potenciais alvos para os mais endinheirados. Abramovich não irá poupar nos seus esforços para satisfazer os pedidos de José Mourinho. Segundo a imprensa inglesa, o técnico português quer juntar no Chelsea Cavani (Nápoles), Hulk (Zenit) e Jovetic (Fiorentina), podendo o clube londrino gastar cerca de 130 milhões só nestes três. Outro dos milionários da liga inglesa, o Manchester City, já começou a investir, com a contratação de Navas ao Sevilha por 20 milhões.


Na Alemanha, o poderio financeiro do Bayern Munique está muito acima dos outros e, depois da contratação de Gotze ao Dortmund, quer fazer novo assalto, contratando Robert Lewandowski, que está também a fazer pressão no sentido de ir jogar no campeão europeu.


A entrada do multimilionário russo Dmitri Ribolovlev no Mónaco transformou o clube do principado, que estava na II divisão em 2012-13, num dos principais gastadores da temporada, com 70 milhões pela dupla do FC Porto João Moutinho e James Rodriguez e mais de 50 milhões pelo colombiano do FC Porto Radamel Falcao, e as responsabilidades do treinador Claudio Ranieri aumentam consideravelmente. Depois do Chelsea de Abramovich, o veterano técnico italiano volta assim a ter uma equipa milionária nas mãos e os gastos podem não ficar por aqui. Na lista do Mónaco aparecem ainda Victor Valdés (Barcelona), Diego Lopez e Angel di Maria (Real Madrid), John Terry (Chelsea) ou Patrice Evra (Manchester United).


E, depois dos 147 milhões gastos no Verão passado com jogadores como Ibrahimovic ou Thiago Silva (foi o clube que mais gastou), o PSG quer reforçar o seu estatuto no futebol europeu e pensa em Tévez (City) ou Rooney (United), mas não deverá decidir nada até resolver a questão do treinador.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Artigo de Reflexão: "Houve emoção mas a Liga portuguesa é cada vez mais uma corrida a dois"

Desporto - Futebol

Tema: "Houve emoção mas a Liga portuguesa é cada vez mais uma corrida a dois"

Artigo publicado in Jornal Público 22 Maio 2013

Autor: Tiago Pimentel

FC Porto ou Benfica venceram 27 das últimas 30 edições do campeonato português. Crise pode aproximar clubes na tabela, mas fenómenos como o do Paços de Ferreira são difíceis de repetir, dizem técnicos

O campeonato que terminou no fim-de-semana de 19 de Maio de 2013, com o título a acabar nas mãos do FC Porto, teve emoção até ao fim, mas, simultaneamente, confirmou a falta de competitividade na Liga portuguesa. Se, por um lado, é certo que o vencedor da prova só foi conhecido na última jornada, por outro, a luta pelo título ficou desde cedo reduzida a FC Porto e Benfica. À 10.ª jornada o duo seguia empatado na frente, já com nove pontos de vantagem para os perseguidores. Dez jornadas depois, "dragões" e "encarnados" continuavam de braço dado na liderança, mas essa diferença tinha aumentado para 17 pontos. No final, a margem pontual entre o terceiro classificado, Paços de Ferreira, e o segundo, Benfica, foi de 23 pontos (24 para o FC Porto).


O Paços de Ferreira foi a grande revelação do campeonato, com um inédito terceiro lugar

Portugal até foi uma excepção no panorama europeu, já que os dois primeiros acabaram separados por um ponto. Na Alemanha, o Bayern garantiu o título a seis jornadas do fim, e terminou com uns impensáveis 25 pontos de vantagem sobre o segundo classificado, o Borussia Dortmund - com o qual disputou, no último sábado, a final da Liga dos Campeões. O Barcelona disparou muito cedo na classificação da Liga espanhola e já celebrou a conquista do campeonato: a duas jornadas do fim, soma mais 13 pontos que o Real Madrid. O título da Premier League regressou às mãos do Manchester United, campeão com 11 pontos a mais do que o rival City (que, na época passada, conquistou o título no último segundo). A Juventus é campeã de Itália, nove pontos à frente do Nápoles. Em França, o PSG regressou aos títulos ainda antes do final da Ligue 1 e tem dez pontos de vantagem sobre o Marselha.

Em comparação, a Liga portuguesa teve emoção até ao último instante. Mas essa impressão esmorece se pensarmos que, nas últimas 30 edições, FC Porto e Benfica saíram vencedores em 27. "É uma corrida a dois. Neste momento qualquer um apostará que Benfica ou FC Porto será campeão para o ano. Infelizmente para o futebol português", admitiu o ex-seleccionador nacional António Oliveira. "Acredito que o Sp. Braga faça melhor para o ano e que o Sporting faça muito melhor. Competitividade é sabermos que qualquer das equipas da frente pode, pela qualidade do seu jogo, plantel e massa associativa, vencer o campeonato. E têm de ser três, quatro, cinco equipas", acrescentou.

O treinador João Carlos Pereira corrobora esta opinião: "Há uma diferença no potencial financeiro e organizacional de FC Porto e Benfica em relação aos demais, embora o Sp. Braga se tenha intrometido em épocas recentes", apontou. Mas salienta que falar em falta de competitividade "é uma questão de perspectiva": "Se falarmos na luta pela Liga Europa, penso que este ano foi excepcional, porque até à última jornada havia vagas em aberto. E também no que toca à descida de divisão. Trouxe emoção e imprevisibilidade ao campeonato".

Desempenhos excepcionais como os alcançados por Paços de Ferreira (que obteve a melhor classificação de sempre ao ser terceiro, garantindo um lugar no play-off da Liga dos Campeões) ou Estoril (quinto classificado e apurado para a Liga Europa na época de regresso à I Liga) são bons sinais e, ao mesmo tempo, reflexo dos tempos. "Estamos numa fase crítica e de crise. O paradigma pode alterar-se: a crise pode aproximar um pouco mais os clubes. Resta saber se são os de cima que baixam ou os de baixo que sobem", refere António Oliveira.

O ex-seleccionador admite ser difícil para estes emblemas repetirem os bons desempenhos: "É importante que tenham feito estes campeonatos. Demonstram que podem fazer-se equipas melhores com menos dinheiro. Revelaram-se duas grandes equipas, mas não são grandes clubes. Não vou dizer que tenha sido pontual, mas duvido que o Paços possa voltar a fazer um terceiro lugar e entrar na Champions. Há uma diferença enorme entre grandes equipas e grandes clubes".

"Já vimos equipas que foram à Europa e no mesmo ano desceram de divisão", lembrou João Carlos Pereira, que aponta a falta de uma cultura de planeamento desportivo: "É uma questão cultural. Mais do que sermos um paradigma de organização, somos um paradigma da gestão do momento", concluiu.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Artigo de Reflexão: "Portugal é um dos "cinco grandes" no campeonato das finais"

Destaque - Futebol Europeu


Tema: "Portugal é um dos "cinco grandes" no campeonato das finais"

Artigo publicado in Jornal Público 05 Maio 2013

Autor: Manuel Assunção

O futebol tem sido das poucas áreas de negócio em que o país tem conseguido aproximar-se do topo europeu. Há quem fale de mérito de gestão, mas também quem alerte que falta sustentabilidade ao êxito

Espanha, Alemanha, Itália, Inglaterra e França. Há muitos anos que é assim quando é preciso fazer uma hierarquia dos campeonatos de futebol da Europa: primeiro os “cinco grandes” e depois os outros, talvez com Portugal à cabeça de um segundo pelotão do qual também costumam fazer parte Holanda, Turquia, Rússia, Grécia e Ucrânia. Mas há um parâmetro que, se fosse isolado, faria o futebol português subir no ranking directamente para o top 5 nos últimos anos: a presença em finais das provas organizadas pela UEFA. O apuramento do Benfica para o derradeiro jogo da Liga Europa desta época aumentou para seis o número de finalistas nacionais nas competições europeias na última década. Inglaterra e Espanha foram as únicas que fizeram melhor no mesmo período de tempo.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Artigo de Reflexão: "Brasileiro, 24 anos, sem clube: foi este o futebolista mais cobiçado em 2012"

Desporto - Futebol


Tema: "Brasileiro, 24 anos, sem clube: foi este o futebolista mais cobiçado em 2012"

Artigo publicado in Jornal Público 17 Abril 2013

Autor: Tiago Pimentel

Jogadores oriundos de Portugal representam mais de 20% do total de importações dos clubes brasileiros. Emblemas portugueses contrataram 287 futebolistas estrangeiros mas tiveram lucro superior a 78 milhões

Brasileiro, com 24 anos (quase a completar 25) e desvinculado: é este o perfil mais comum dos futebolistas transferidos internacionalmente em 2012, conclui um relatório baseado nos dados do sistema TMS (Transfer Matching System) da FIFA, ontem divulgado. Estes dados contabilizam apenas transferências entre clubes de países diferentes e não dentro de um mesmo país. Portugal ficou no top cinco dos campeonatos com mais entradas e mais saídas. Em 2012 registou-se uma diminuição de 10% em relação ao ano anterior no valor total das compensações financeiras pagas entre clubes pelas transferências internacionais, que se cifrou em 2,5 mil milhões de dólares (1,9 mil milhões de euros). Mas aumentou o envolvimento de intermediários, que participaram em 44% das transferências em que houve lugar a compensação financeira.


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Artigo de Reflexão & Leitura: "O futebol é mais instrumentalizado hoje do que foi durante o Estado Novo"

Futebol - Entrevista

Tema: "O futebol é mais instrumentalizado hoje do que foi durante o Estado Novo
"

Artigo publicado in Jornal Público 25 Abril 2013

Autor: Ricardo Serrado


Historiador Ricardo Serrado defende que o futebol não foi um dos “efes” do Estado Novo. E também assegura que não houve um clube do regime

O futebol esteve longe de ser um veículo de propaganda do Estado Novo, que até atrasou o desenvolvimento da modalidade. Eusébio só não saiu de Portugal mais cedo porque tinha de ir à tropa. E não houve um clube do regime, embora o Sporting tenha sido o emblema que teve mais figuras ligadas ao poder. Estas são algumas das ideias defendidas pelo historiador Ricardo Serrado, no livro O Estado Novo e o Futebol, recentemente publicado.

PÚBLICO: No seu livro contesta a ideia de que o Estado Novo se ancorou nos três efes: fado, futebol e Fátima. Porque diz isso?

Quando parti para a minha tese, que serve de base a este livro, ia com a ideia comum de que o futebol tinha sido intensamente politizado e instrumentalizado neste período. Desde que me lembro, ouço dizer que Portugal era futebol, fado e Fátima. Para grande surpresa minha, apercebi-me que as coisas não eram de todo assim. O futebol não foi instrumentalizado, da forma como se diz. Nem há provas, documentos ou indícios de que o futebol tenha sido politizado durante o Estado Novo. E apresento neste livro vários argumentos que suportam esta ideia, como o facto de o futebol não ter sido profissionalizado mais cedo. E podia tê-lo sido, porque logo desde a década de 1920 ganhou uma importância social muito grande, mas o Estado Novo, ainda nos princípios da década de 1940, proíbe o seu profissionalismo.

Porquê?

Porque a ideia que o Estado Novo tinha do futebol, e do desporto em geral, era que deveria ser amador, ao serviço da nação, da educação física, para o cultivo do corpo. O desporto de espectáculo, de massas, era amplamente condenável para o Estado novo. E apresento vários documentos dessa intervenção, no sentido de impedir que o desporto fosse um espectáculo, um entretenimento ou uma profissão.

O Estado Novo nunca apostou no futebol, antes pelo contrário

Apesar desse travão do Estado Novo, o futebol continuou a ser a grande modalidade. Podemos dizer que o Estado Novo não foi nesse capítulo muito bem sucedido?

O ciclismo foi a modalidade rainha no final do século XIX e início do século XX, mas a partir de 1910, sobretudo em Lisboa e depois no Porto, o futebol ganha grande pujança. A partir da década de 1920, o futebol tem já um modus operandi e características que hoje em dia identificamos como fenómenos de massas: a agressividade dos adeptos, a contestação à arbitragem e os campos cheios de gente. Antes do Estado Novo surgir, já o futebol era o desporto-rei.


O Estado Novo tentou mais controlar o fenómeno do futebol do que aproveitar-se dele para a sua propaganda?

O Estado Novo definiu uma política desportiva concreta, que era consonante com o resto da sua política. Sendo um regime autoritário à imagem do seu líder (reservado, que não ia em convulsões), e não tanto regime de massas como o fascismo italiano e o nazismo, o Estado Novo adapta o modelo fascista à realidade portuguesa e às ideias do seu líder. E no desporto segue essa linha. O desporto devia servir para educar, civilizar, desenvolver os valores defendidos pelo Estado Novo, que era completamente contra as massas e a profissionalização de qualquer modalidade.

O nazismo usou os Jogos Olímpicos de Berlim 1936 e o fascismo italiano o Mundial de futebol de 1934. Não detectou nenhuma pulsão do Estado Novo para aproveitar por exemplo das conquistas europeias do Benfica na década de 1960 e dos bons resultados da selecção no Mundial 1966?

Existe algum aproveitamento, mais como consequência. As coisas aconteciam. O Estado Novo não as potenciava, mas colava-se a elas.

Um pouco como acontece actualmente…

Sim. Quando o Benfica foi campeão europeu e a selecção ficou em terceiro lugar em 1966, a ideia era que não era o Benfica ou a selecção, mas sim o país. Aí o Estado Novo faz algum aproveitamento, mas é algo natural e espontâneo num governo que quer chamar a si alguns desses feitos. Não considero que seja um aproveitamento planeado. Foi algo que aconteceu e espontaneamente aproveitou para promover o país.

O clube que teve mais personalidades ligadas ao regime foi o Sporting. Mas não estou a dizer que o Sporting era o clube do regime ou que foi o mais favorecido
 


Quer dizer que isso não é muito diferente do que acontece actualmente quando um clube português conquista um troféu internacional?

Exactamente. Quando o FC Porto é campeão nacional, vai à Câmara do Porto [desde que Rui Rio tomou posse, essa tradição mudou]. E o Benfica à Câmara de Lisboa. Até tenho ideia de que o futebol é hoje mais instrumentalizado, também de uma forma espontânea, do que no período do Estado Novo. Basta ver o Euro 2004 e a aposta do Estado no futebol, para o potenciar e para retirar dividendos com a sua promoção. O Estado Novo nunca apostou no futebol, antes pelo contrário. Na década de 1920, o futebol estava em desenvolvimento. Esteve nos Jogos Olímpicos de 1928 e tinha alguns jogadores de relevância internacional, como o Jorge Silva, Pepe, Augusto Silva e Vítor Silva. Já na década de 1930 e 1940 o futebol entra em período muito negativo, sofre goleadas e nota-se que a selecção poderia ter algum talento individual, mas a conjuntura não potenciava.


Porquê?

Em 1942, o Estado Novo criou a Direcção-Geral de Educação Física, Desportos e Saúde Escolar (DGEFDSE), que é o organismo que vai tutelar todo o desporto nacional e o futebol ficou ali condensado e preso. E em 1943, lança as leis bases do desporto e diz que o profissionalismo é proibido. Foi preciso esperar até 1960 para alguma equipa portuguesa fazer algo relevante no panorama internacional. Penso que isso se deve em grande medida ao travão imposto pelo Estado Novo, ao aprisionamento do futebol, que já movia largas somas de dinheiro. O Estado Novo nunca quis potenciar o futebol.

Uma das ideias do seu livro é que Salazar não gostava de futebol. Mas não houve outras figuras do regime a tentar instrumentalizar o futebol?

O facto de Salazar não gostar de futebol não impedia que outros gostassem, como era o caso de Américo Tomás, Craveiro Lopes, Henrique Tenreiro, Cancella Abreu. Claro que havia agentes do Estado Novo que gostavam de futebol, mas sobre Salazar não há indícios de que tivesse clube. Aliás, poucas vezes se manifesta sobre desporto. Fá-lo para anunciar o Estádio Nacional, quando o Benfica foi campeão europeu em 1961 e no Mundial de 1966, mas é um homem à parte do fenómeno desportivo. Aliás, quando ele recebe o Benfica em 1961, vê-se que é um homem que não está muito à vontade com a gíria do futebol e nem sequer seguiu a carreira da equipa. Disse qualquer coisa como: ‘então foi muito difícil resolver o vosso problema de futebol?’.

Mas terá ficado impressionado com o impacto social das vitórias do Benfica de 1961 e 1962?

Sim, porque esse impacto social é algo sem precedentes no país. Foi uma manifestação da portugalidade e penso que o Estado Novo deixou as pessoas expandirem-se, embora não tenha valorizado em demasia essas conquistas. Aliás, em 1966, quando o Eusébio tem o seu grande Mundial e a consagração internacional, o Diário da Manhã, que era o órgão oficial do Estado Novo, escreveu nas páginas centrais que o melhor jogador do mundo não era o Eusébio mas sim o Pelé.

Não foi o Eusébio-jogador que foi impedido de sair, mas sim o Eusébio-militar ou cidadão


Outras das ideias comuns é que Salazar impediu Eusébio de sair o país. Algo que também contesta no seu livro…

Sim. Com todo o respeito pelo Eusébio, que foi um dos melhores jogadores de sempre, nunca encontrei nenhum indício que leve a pensar que Eusébio tenha sido “nacionalizado” ou impedido de sair do Benfica por ser um símbolo ou herói nacional. O que aconteceu, e o próprio Eusébio o diz numa entrevista em 1995, foi que em 1962-63, ele teve um pré-acordo com a Juventus e acabou por não sair por intervenção do Estado Novo, mas porque tinha de ir para tropa. À luz do Estado Novo, era impensável dispensar fosse quem fosse de ir à tropa. O que costumo dizer é que não foi o Eusébio-jogador que foi impedido de  sair, mas sim o Eusébio-militar ou cidadão. Ainda para mais, em 1966, o Inter de Milão quis contratar Eusébio, que chegou mesmo a escolher casa, e só não foi porque a federação italiana fechou as portas a estrangeiros, por causa de ter feito um mau Mundial e de querer potenciar os jogadores nacionais. Ainda para mais, o professor Manuel Sérgio confidenciou-me que o director da DGEFDSE era seu amigo pessoal e que se houvesse uma “nacionalização” de Eusébio ele teria sabido. Trata-se de um mito. Eusébio foi impedido de sair, mas apenas por razões militares.

Também defende que o Estado Novo não interveio de forma pensada nos clubes.

Não há nenhum clube do regime, primeiro porque o mentor do regime não tem clube, ao contrário de Franco [em Espanha], que se diz que era do Real Madrid. Salazar não esteve nas inaugurações dos estádios dos principais clubes. Depois, o clube que mais ganhou durante a segunda metade do Estado Novo foi o Benfica, que era o clube que tinha mais oposicionistas ao regime e que, na sua direcção, teve menos pessoas ligadas ao mesmo. O clube que teve mais personalidades ligadas ao regime foi o Sporting, onde contabilizei cerca de 12 ou 13 dirigentes com ligações ao poder.

Terá a ver com a génese mais elitista do Sporting?

Penso que sim. Talvez pela posição social mais elevada esses dirigentes estivessem mais próximos do poder. Mas não estou a dizer que o Sporting era o clube do regime ou que foi o mais favorecido. Durante a primeira metade do Estado Novo, o Sporting é o mais ganhador, mas na segunda metade é o Benfica.


O Belenenses também tinha algumas figuras ligadas ao regime e foi campeão em 1946. Houve algum traço de clube do regime?

Não. O Belenenses entrou em decadência nos anos 1960, talvez por causa de ter construído um estádio com um esforço financeiro muito grande. O estádio do Restelo custou mais do que o da Luz. Em 1975, o estádio foi mesmo hipotecado e Américo Tomás até teve de intervir, mas nunca encontrei traço de clube de regime.

O Benfica foi o clube que teve mais oposicionistas declarados

Pelo contrário, na confrontação com o governo foi o Benfica quem mais se aproximou desse papel, nomeadamente por causa do hino censurado a Félix Bermudes (Avante Benfica)…

Sim. O Benfica foi o clube que teve mais oposicionistas declarados.

E teve mesmo um presidente comunista…

Sim, o que é inédito. Manuel da Conceição Afonso é o único caso conhecido de um comunista a presidir a um clube durante o Estado Novo. Naquela altura, todos os dirigentes de instituições tinham de assinar uma declaração a dizer que não eram comunistas. No caso do desporto, era uma declaração que vinha da DGEFDSE. E até li num livro que Manuel Afonso se terá recusado a assinar essa declaração. O próprio Félix Bermudes, que fez o hino Avante Benfica [que o Estado Novo censurou, dando origem ao actual Ser Benfiquista], fez parte das listas da oposição nas eleições de 1949. Norton de Matos acaba depois por desistir e Félix Bermudes ficou chateado. Estamos a falar de oposicionistas activos.

Essas simpatias ou antipatias pelo regime traduziam-se apenas em actos simbólicos?

A inauguração do Estádio de Alvalade foi a 10 de Junho, data escolhida pelo presidente Góis Mota, que foi um homem forte do Estado Novo, tal como outro presidente do Sporting Cazal Ribeiro. A escolha do 10 de Junho teve algum simbolismo, por ser uma data importante para o regime.

Tal como o facto de a inauguração do Estádio das Antas ter sido feita a 28 de Maio de 1952 [aniversário da revolução que instaurou o regime do Estado Novo]…

Também. Na altura, o presidente do FC Porto [Urgel Horta] era deputado à Assembleia Nacional. E o ministro das Obras Públicas tinha dado alguma ajuda e a direcção do FC Porto achou por bem inaugurar numa data importante para o regime.

Mas essas conotações limitavam-se aos dirigentes?

Sim, embora os dirigentes fossem o espelho da respectiva massa associativa.

Das poucas vezes em que Salazar aparece com trajes desportivos, surge dentro de um veleiro e diz que se houvesse um desporto nacional deveria ser a vela, por estar ligada ao mar

Vislumbrou alguma tentativa de essas figuras próximas do regime tentarem chamar os adeptos para o seu lado político?

Respondo com um sim, embora não um sim muito claro. O autor da letra [Paulino Gomes Júnior] “Ser Benfiquista” era um salazarista e chegou a ser director do jornal do Benfica. Os textos dele mostravam alguma propaganda salazarista, não algo que viesse de instâncias superiores, mas sim como tradução do que era a visão dele. Mas onde isso é mais clarividente é no jornal do Sporting. Não é por acaso que na inauguração do Estádio de Alvalade, a 10 de Junho [de 1956], expressões como império, raça ou génio lusitano são usadas. São palavras gratas ao regime e que denotam uma clara colagem ao Estado Novo, que é espontânea, porque essas pessoas eram salazaristas e não o procuravam esconder.

A interracialidade no futebol português foi usada pelo regime para passar uma mensagem positiva para o exterior, de um Portugal colonial harmonioso?

Quando Portugal foi à fase final do Mundial de 1966 essa mensagem passou. Foi uma oportunidade muito boa para transmitir uma harmonia entre a metrópole e as colónias, numa altura em que os impérios coloniais europeus se desmoronavam.

Olhando para o futebol em Portugal hoje, acredita que este desporto tem um papel mais central na sociedade do que aquele que teve durante o Estado Novo?

O futebol alcançou um patamar social importante logo nos anos de 1920 e não era muito diferente daquilo que é hoje. Já movimentava muita gente e até tinha patrocinadores que procuravam aproveitar a popularidade deste desporto. Havia pequenos empresários a investir dinheiro no futebol, que já tinha uma organização relativamente complexa. Com o final do Estado Novo o futebol, e o desporto em geral, foram muito mais potenciados. Durante o salazarismo o futebol foi amputado da sua vertente mais profissional, de espectáculo e de entretenimento e hoje em dia isso não acontece.

É verdade que Salazar defendia que o desporto nacional deveria ser a vela?

Sim, das poucas vezes em que ele aparece com trajes desportivos, surge dentro de um veleiro e diz que se houvesse um desporto nacional deveria ser a vela, por estar ligada ao mar. Na Mocidade Portuguesa, por exemplo, o desporto mais proeminente era o campismo.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Artigo de Reflexão: "Utilização de um jogador após lesão"

Futebol - Opinião

Tema: "
Utilização de um jogador após lesão"

Artigo publicado in Jornal Público 02 Abril 2013

Autor: José Carlos Pereira


Utilização de um jogador após lesão

À margem da dupla jornada para o apuramento da seleção nacional portuguesa para o Mundial 2014 no Brasil, surgiu mais uma polémica. O retorno à atividade de João Moutinho, peça imprescindível na dinâmica funcional da nossa seleção, originou um “bate boca” entre o selecionador nacional Paulo Bento e Pinto da Costa, o presidente do FC Porto.


Independentemente do que foi e como foi dito, uma coisa é certa, concordo com o que afirmou José Luís Arnaut, o presidente da Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Futebol: “Tem de existir muita serenidade e o importante são aqueles que estão em campo, que marcam golos e que dão vitórias. Tudo o resto são fait-divers que ajudam a alimentar polémicas e a vender papel”. De facto, os jogadores são a peça mais importante desta engrenagem e esta polémica fez-me refletir acerca da responsabilidade do treinador na utilização de um futebolista após lesão.

Este é um assunto que envolve um grau de complexidade elevado, pois cada caso deverá ser equacionado de forma particular. A capacidade de comunicação entre os intervenientes e a proximidade do treinador ao jogador e departamento médico assumem aqui um papel relevante. O treinador, como figura central na gestão e rentabilização dos seus jogadores, deve ter em conta algumas premissas e fatores (tipo de lesão; tempo de inatividade; tipologia e características do jogo e do adversário em causa; grau de responsabilidade e previsão do nível de intensidade do jogo; a influência do jogador na dinâmica funcional da equipa; etc.) antes de decidir a utilização de um ativo. Usando a sua sensibilidade e bom senso, o técnico deve avaliar os riscos, os prós e os contras de uma eventual utilização, mas deverá ser suportado por uma colaboração estreita da estrutura, o que se revela fulcral no auxílio ao seu trabalho.

Uma equipa de futebol, como organização de elevado rendimento, deve ser bem estruturada, dotar-se de profissionais de elevada qualidade nas diferentes áreas de intervenção e nada pode faltar no acompanhamento do processo de tratamento e recuperação de lesionados. A importância de um departamento médico bem equipado, próximo, comprometido e com uma intervenção adequada, não apenas no tratamento das lesões, mas sobretudo na readaptação dos jogadores à competição, porque existe uma grande distância entre estar recuperado clinicamente e estar pronto a competir, faz a diferença.

A tomada de decisão da utilização de um jogador é um processo que, em última análise, diz respeito ao treinador, mas que deve merecer uma importante participação e envolvência do departamento médico e um papel ativo do jogador. Antes de mais, estes seres que os treinadores têm à sua disposição nos seus plantéis são “máquinas” muito sensíveis e há riscos elevados ao colocar em jogo um futebolista prematuramente.

Para um jogador nada é mais doloroso que a inatividade por lesão, e uma recidiva revela-se extremamente penalizadora, não só porque implica consequências no estado de espírito e no aumento do tempo de inatividade do jogador em causa, mas também porque cria um ambiente negativo de insegurança dentro de um plantel. Por outro lado, e como explicam Woods et al (2002), as ausências por lesões provocam uma perda económica muito importante.

* Artigo publicado respeitando a norma ortográfica escolhida pelo autor

segunda-feira, 25 de março de 2013

Artigo de Reflexão: "Ryan Giggs e a longevidade de carreira"

Futebol - Opinião

Tema: "
Ryan Giggs e a longevidade de carreira"

Artigo publicado in Jornal Público 05 Março 2013

Autor: José Carlos Pereira


Ryan Giggs e a longevidade de carreira

O Manchester United anunciou há dias a renovação de contrato com Ryan Giggs até 2014. Em vésperas de completar 1000 jogos, o galês, tratado carinhosamente pelos adeptos como Giggsy, vai jogar até aos 40 anos de idade ao mais alto nível. Muitos títulos ganhos, e quando terminar a próxima temporada, serão 24 anos sempre no topo. Impressionante! Não tenho qualquer dúvida de que o manager Sir Alex Ferguson teve e continua a ter um papel decisivo a este propósito, e não poderia ser mais explícito: “Ryan mereceu a renovação porque o seu rendimento não sofreu alterações nos últimos anos”.


Há registos de outros casos de longevidade, mas com a exigência competitiva dos tempos que vivemos, num clube de topo como os red devils e com esta idade, não me ocorre. Ao tomar conhecimento da notícia pelo site do Manchester, de imediato me surgiram algumas questões… Como pode um jogador manter-se no topo até aos 40 anos de idade? Será que outros futebolistas poderiam igualmente ter chegado a esta marca com o treinador adequado? O que leva um clube com a dimensão do United a manter um atleta nestas condições? O que pode ele dar ao clube e à equipa? Como deve um treinador gerir um futebolista nestas circunstâncias? Após a sua retirada, não há dúvidas que vai acontecer um dia, como pode o seu capital de experiência acumulada ser aproveitado num clube?

Ao site do Manchester United, The boss, como é tratado Alex Ferguson pelos jogadores, afirmou: “O que posso dizer de Ryan que ainda não tenha sido dito? Ele é um jogador maravilhoso e um ser humano excecional. É um exemplo para todos nós, no que toca à forma como tratou e continua a tratar de si.”

Como se manter no topo...

A carreira de um futebolista de eleição e a competir ao mais alto nível é muito exigente e desgastante. O facto de não contrair muitas lesões pode ser crítico, assim como é importante o contributo que a evolução da metodologia do treino, a medicina desportiva e outras ciências subsidiárias tiveram nas últimas décadas.

Não erro se disser que a quase totalidade dos futebolistas que continuam a jogar até tarde, sentem uma enorme paixão e prazer pela atividade e mantêm a motivação e o desejo de continuar a competir, a desafiar-se, a superar-se diariamente. Têm personalidade, boa cabeça e caráter. São uns verdadeiros campeões, contagiam os demais e possuem mentalidade. Está-lhes no ADN! Uma vida regrada, hábitos e rotinas de treino adequadas e um estilo de vida saudáveis fazem parte do quotidiano destes atletas. Têm uma educação desportiva de topo e possuem a consciência das exigências e das responsabilidades associadas ao seu trabalho.

São muito fortes mentalmente, treinam nos limites e sabem que o descanso é parte integrante e complementar do treino. Utilizam racionalmente os “tempos livres” e sabem o que fazer para se prepararem, não só física mas também emocionalmente, para os estímulos do(s) treino(s) do dia seguinte, alimentando e hidratando bem a  “máquina” especial que é o corpo de um atleta de eleição.  Ainda há uns dias Eusébio afirmou precisamente a importância de uma vida regrada: “Para se ser um futebolista de dimensão internacional não basta ter talento. É preciso uma vida regrada e fugir dos vícios”. Enfim, mens sana in corpore sano…


... com o treinador certo

Não é para todos atingir este desiderato, mas estou seguro que com o treinador certo, isto poderia acontecer com mais frequência. Claro que o ambiente e o clube podem assumir um papel ativo para que um futebolista revele e potencie valências e caraterísticas conducentes a esta longevidade. Neste caso concreto, Sir Alex Ferguson possui um conhecimento profundo do percurso de Giggs, a evolução que este sofreu como homem e atleta desde miúdo, e isto pode explicar a vontade do clube/treinador continuarem a contar com ele.

Além de o clube dever proporcionar todas as condições para otimizar o processo de treino e a recuperação fisiológica e mental, o papel do técnico é aqui muito importante. O treinador deve ser um profundo conhecedor do processo de treino e da dinâmica dos estímulos fisiológicos, e implementar uma metodologia de treino de forma a tirar rendimento do jogador sem correr riscos de lesões; deve ter também um conhecimento profundo do perfil psicológico do jogador e um domínio profundo da capacidade, potencial e competências do futebolista e do que ele pode continuar a dar à equipa e ao clube.

Cabe ao treinador assumir um papel determinante no estabelecimento de uma visão para a carreira do jogador e de o liderar nesse caminho árduo de o “esculpir”, “modelar” a valores comportamentais e competitivos. O técnico deve estimular o futebolista a evoluir, fornecendo-lhe toda a informação e os instrumentos necessários a um profundo conhecimento da lógica do jogo, das suas particularidades e nuances táticas.

Neste processo, à medida que vai perdendo frescura física, o jogador, por outro lado, aumenta a acumulação de vivências e enriquece a sua capacidade decisória. Um melhor conhecimento do jogo e das suas capacidades ajudam o jogador a reinventar-se e por vezes a ocupar outras zonas do campo, assumindo outras funções táticas. O jogador Giggs de hoje é diferente do de início de carreira e ele tem noção clara disso. “Sinto-me igualmente confortável a jogar tanto no meio como na esquerda, o meu trabalho agora é fazer passes que perturbem o defesa, em vez de o driblar”, afirmou, porque “estar em campo é tudo o que interessa”.

* Artigo publicado respeitando a norma ortográfica escolhida pelo autor

terça-feira, 5 de março de 2013

Artigo de Reflexão: "O treinador, o espetáculo e a sobrecarga de jogos"

Futebol - Opinião

Tema: "
O treinador, o espetáculo e a sobrecarga de jogos"

Artigo publicado in Jornal Público 26 Fevereiro 2013

Autor: José Carlos Pereira


O treinador, o espetáculo e a sobrecarga de jogos

Trabalhar em equipas de topo significa ter muitos jogos (competições nacionais e internacionais), em especial em alguns meses. Estamos porventura na fase mais importante da temporada desportiva e por toda a Europa as competições entram na fase terminal. Os jogos sucedem-se e, numa equipa ainda em todas as frentes, isso obriga a uma grande sobrecarga de jogos. O futebol é um espetáculo apaixonante a uma escala global e os intervenientes têm de estar em condições de dar o seu melhor continuamente.

Para as equipas de topo europeias, os meses de Fevereiro e Março estão repletos de compromissos competitivos (há equipas a fazer entre oito e 11 jogos oficiais num período de 35 dias), e isso implica viagens, estágios e períodos longe das famílias, com algumas das semanas sem qualquer folga para os jogadores.



Como afirmou Jorge Jesus, o treinador do Benfica, a este propósito, “quem quer competir em alto nível tem de estar sujeito a este calendário”. Mas além do desgaste físico, que isto acarreta para os jogadores, atente-se que o esforço mental e a carga emocional de disputar estes jogos a um nível máximo de exigência e de concentração pode deitar tudo a perder se não houver uma planificação e uma abordagem metodológica do processo de treino adequadas.


Dir-me-ão que para este tipo de jogos com uma carga decisiva, os jogadores terão ainda mais motivação. Obviamente que sim, e sobre isso José Mourinho referiu: “Nós gostamos deste tipo de jogos. Todos querem jogar. Prefiro jogos desta dimensão e dificuldades do que jogos sem pressão. Estamos preparados para jogar. Queremos que chegue rápido o jogo com o Barcelona e com o Manchester United.”

Preparar uma equipa de futebol já é por si uma tarefa muito complexa. No entanto, fazê-lo nestas circunstâncias exige ao treinador atenção, sensibilidade e cuidados reforçados. Antes de mais, jogar a cada três ou quatro dias, de forma sucessiva, implica um maior número de treinos de recuperação e menos treinos de aquisição, em especial para os jogadores mais utilizados, o que obriga que qualquer intervenção/correção por parte do treinador, do ponto de vista técnico-tático e no que toca à forma de “jogar”, tenha de ser iminente e praticamente teórica e um pouco descontextualizada dum treino específico. Depois, correm-se riscos de lesões e entrada em declínio de forma devido ao “sobretreino” ou sobrecarga de competição.



Também por esta razão, os plantéis destas equipas devem ser equilibrados em quantidade e qualidade. Gerir a competição e os treinos, com um plantel homogéneo, permite uma gestão dos jogos com alguma rotatividade, utilizando os jogadores mais adequados a cada tipo de adversário e, consequentemente, com o mesmo rendimento. Isto também possibilita ao treinador uma gestão dos jogos tendo em conta as incidências do mesmo e, simultaneamente, tendo uma especial atenção o esforço e eventual cansaço de alguns jogadores, porque cada jogador é único.

O hábito tem um papel fulcral nesta temática. A preparação de uma equipa e de um jogador assenta muito no hábito e o que se procura é a forma desportiva. Treinar com intensidade, de forma contextualizada com a ideia de jogo do treinador, com os esforços exigidos por essa forma de jogar e com a devida atenção à dinâmica dos estímulos (tendo em conta o princípio da alternância horizontal, que basicamente é a aplicação adequada dos estímulos fisiológicos de treino no microciclo semanal), prepara melhor os jogadores para as exigências competitivas.

Além disso, quando os jogadores já possuem o hábito de competir com elevada exigência e de forma constante, a sua capacidade de resposta a estes ciclos é mais positiva. Por isso, Messi referia há dias que “o corpo reage melhor se não descansar”. De fato, a recuperação fisiológica e mental é deveras importante, pois sem frescura os jogadores não rendem, mas quando já existe o hábito de competir a cada três dias, os jogadores, na sua quase generalidade, reagem com naturalidade a estes ciclos. Disfrutemos então dos jogos apaixonantes que se avizinham e que seguramente vão elevar ao máximo a adrenalina dos jogadores, treinadores e em particular dos espetadores. The show must go on!

* Artigo publicado respeitando a norma ortográfica escolhida pelo autor

Artigo & Fotografias: público.pt

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Artigo de Reflexão: Apostas desportivas: uma "mina de ouro" que ameaça o futebol

Desporto - Internet|Futebol

Tema: "Apostas desportivas: uma "mina de ouro" que ameaça o futebol"

Artigo publicado in Jornal Público 23 Fevereiro 2013

Autor: Hugo Daniel Sousa
Ligas europeias criticam Comissão Europeia e governos nacionais pela demora na legislação das apostas online. E dizem que o futebol "é vítima" das máfias que manipulam jogos

A casa de apostas bwin paga anualmente 23 milhões de euros para ter o seu nome nas camisolas do Real Madrid. A consultora H2 Gambling Capital estima que em 2012 tenham sido gastos 50.700 milhões de euros em apostas desportivas na Internet. E um estudo realizado no ano passado estima que este sector movimente globalmente 200 mil milhões de euros por ano. Estes números dão uma ideia da dimensão de um sector que surge como uma fonte de financiamento importante para o futebol, mas que também aparece como uma crescente ameaça à credibilidade da modalidade mais popular do mundo.

Depois de alguns casos de manipulação de jogos na Ásia, na Europa de Leste e em Itália, a recente investigação da Europol – que detectou 680 jogos viciados, 380 dos quais na Europa – voltou a colocar o tema no centro das atenções. Afinal, ainda podemos acreditar no que vemos quando vamos a um estádio ou assistimos a um jogo de futebol na televisão?

Emanuel de Medeiros, director-executivo da Associação das Ligas Europeias de Futebol (EPFL), há muito que alerta para a questão das apostas desportivas, mas também chama a atenção para a necessidade de não confundir a árvore com a floresta: “Deve-se ter muito cuidado, para não criar uma suspeição generalizada, que ponha em causa a credibilidade do futebol. Muitas vezes, mais do que o problema é a ameaça do problema que contribui para afectar a imagem de credibilidade do desporto”, diz, em entrevista ao PÚBLICO, mostrando até algum incómodo pela forma como a Europol anunciou os resultados da sua investigação.

“Escrevi ao director da Europol e pretendo saber que Ligas e jogos foram afectados, se são situações antigas e já reportadas”, diz o representante das Ligas europeias, garantindo que as instâncias do futebol actuarão “de forma implacável sobre quem puser em causa a verdade desportiva”, mas reconhecendo que é um tema complicado, porque o futebol “é um sector apetecível para quem, com escrúpulos ou sem eles, o encare como uma fonte de negócio”.

Bem mais negativa é a conclusão de Chris Eaton, director do departamento de integridade no Centro Internacional para a Segurança no Desporto, uma organização não-governamental sediada no Qatar: “O futebol está num estado desastroso. Viciar jogos para fraudes em apostas é endémico a nível mundial. E acontece diariamente”, disse, em declarações à agência AP.

Quando se fala em apostas desportivas ilegais, há duas questões diferentes. Uma é a manipulação de resultados, com vista a ganhar dinheiro em apostas. A outra é o facto de muitas casas de apostas funcionarem sem licença, até porque as novas formas de jogo online permanecem por regulamentar em vários países europeus, incluindo Portugal, onde a decisão sobre a regulamentação das apostas online em Portugal está neste momento nas mãos do Ministério das Finanças.

A tutela de Vítor Gaspar assumiu o dossier (que antes estava com o ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas) depois de o grupo de trabalho criado em Janeiro de 2012 ter concluído o relatório encomendado pelo Governo, apontando três grandes direcções para a lei: abrir completamente o mercado a novos operadores, liberalizar parcialmente a actividade ou fechar este negócio, mantendo-o como monopólio da Santa Casa da Misericórdia.


Estima-se que o sector das apostas desportivas na Internet movimente 200 mil milhões de euros/ano

“O futebol é uma vítima”

Depois da droga, das armas e da contrafacção, a viciação de jogos parece ser um novo campo de actuação das máfias, disse à AFP Pascal Boniface, director do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), um think tank francês que em 2012 coordenou um estudo sobre apostas desportivas e corrupção.

Joseph Blatter, presidente da FIFA, até admitiu que é impossível impedir a batota. “Estamos a falar de jogos e nos jogos há sempre batota. Nunca deixará de existir”, disse, citado pela AFP.

Uma declaração de impotência que Emanuel de Medeiros lê de outra forma. “É inegável que não dispomos dos meios e da jurisdição para fazer investigações visando organizações criminais que possam estar a agir neste sector”, diz o director-executivo da EPFL, para quem este é “um assunto de polícia”: “Daí que seja necessária uma acção concertada entre organismos desportivos, os legisladores e as autoridades policiais e judiciais. Também quero dizer que nada disto é gerado pelo futebol. O futebol é vítima. São fenómenos sociais e que vitimizam o futebol.”

Uma opinião que é partilhada pela própria Interpol. “Isto está certamente para lá e acima do futebol e da FIFA. É justo dizer que ainda percebemos a verdadeira dimensão do problema”, admitiu Ronald Noble, secretário-geral da Interpol, também em declarações à AP.

A polícia tem conseguido algumas vitórias. Além da operação da Europol, as autoridades italianas detiveram na quinta-feira o esloveno Admir Suljic, suspeito de ter ligações a uma rede que manipulou mais de 700 jogos. E a Interpol já pediu a colaboração de Singapura para deter  Dan Tan, considerado o cérebro de uma grande rede de corrupção desportiva.

Só que estes progressos são ainda pequenos e a grande questão permanece: como se combate a viciação de jogos? “Evidentemente não há nenhuma receita milagrosa”, responde Emanuel Medeiros. “Mas há um cocktail de medidas que deve ser aplicado de forma global e concertada”, diz, a começar pela necessidade de “legislação adequada, o que compete à Comissão Europeia e aos Estados-membros”.

“Depois tem de haver, da parte do movimento desportivo, um conjunto de medidas visando educar todos os participantes nas competições, nomeadamente criando códigos de conduta para observar regras que evitem situações de conflitos de interesse e quebras de deontologia”, acrescenta, sugerindo “um conjunto de incompatibilidades destinadas a todos os participantes nas competições, sejam eles futebolistas, dirigentes, treinadores, árbitros ou massagistas”.

Uma das medidas que já estão em acção são os sistemas de aviso prévio, “que implicam a monitorização permanente do mercado de apostas da Internet, 24 horas por dia, de forma a detectar padrões irregulares que indiciem tentativas de viciar jogos”. Ou seja, se os técnicos detectarem padrões estranhos são accionados “mecanismos preventivos”, que passam pela colaboração com as autoridades policiais.

Emanuel de Medeiros destaca ainda outra medida, que já vigora em França: definir que apostas são admitidas. É que há “apostas desportivas que são perniciosas”. Exemplos? “Apostar quem vai ser o primeiro a sofrer um penálti ou a ver um cartão vermelho são situações que podem pôr em causa valores essenciais da verdade desportiva.”

Uma questão que remete para a fragilidade dos agentes desportivos, em particular dos jogadores, que foi precisamente destacada nesta semana por Brendan Schwab, director do sindicato de futebolistas (FIFPro) na Ásia. “Estamos a lidar com crime organizado e com pessoas que farão o que for necessário para executarem o seu plano”, disse o responsável, durante a conferência “Jogos manipulados: o lado feio do jogo bonito”, organizado na Malásia pela FIFA e pela Interpol.

Schwab alertou para a necessidade de os jogadores serem protegidos quando efectuarem denúncias de tentativas de viciação e citou dados preocupantes de um inquérito a mais de 3000 futebolistas em 15 países da Europa de Leste: 11,9% dos jogadores foram abordados para viciar resultados e 23,6% tinham conhecimento de jogos manipulados nos campeonatos dos seus países. O Leste europeu está particularmente sobre suspeita. Um telegrama da embaixada americana em Sófia, revelado pela Wikileaks, dá conta de suspeitas de o futebol búlgaro ser dominado pelo crime organizado, que “usa os clubes para se legitimar, lavar dinheiro e ganhar dinheiro rápido”.

O outro problema das apostas

Além da corrupção associada às apostas, os responsáveis do futebol estão preocupados com outra faceta deste sector. “Há todo um outro circuito relacionado com apostas pela Internet, que não sendo propriamente ilegais, não são exploradas ao abrigo de uma licença”, aponta Emanuel Medeiros, reclamando o direito dos clubes de receberem uma compensação pela utilização da sua imagem em apostas desportivas.

“A exploração de apostas desportivas deve implicar um justo retorno financeiro para os organizadores das competições. Sem desporto, não há apostas desportivas. Estimativas de 2012 apontam para receitas na ordem de 50 mil milhões de euros das empresas de apostas desportivas na Internet. Desse valor, quanto é que o futebol recebe? Nem recebe contrapartida, nem tão pouco lhe é pedido consentimento. Há um vazio legal que persiste mais do que devia. Não entendemos a passividade da Comissão Europeia e de muitos governos nacionais”, critica Emanuel de Medeiros, incluindo Portugal neste lote.

“Portugal está ao nível da Sérvia e da Ucrânia neste domínio e isto é insustentável. Ao Governo cabe combater o jogo ilegal”, diz o responsável da EPFL, que também não entende a proibição de publicidade a casas de apostas. “Em qualquer jogo do Real Madrid na TV portuguesa vê-se publicidade a uma casa de apostas nas camisolas.” com Raquel Almeida Correia

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Artigo de Reflexão: Há quase tantos portugueses a jogar em Portugal como no resto da Europa

Desporto - Futebol

Tema: "Há quase tantos portugueses a jogar em Portugal como no resto da Europa"

Artigo publicado in Jornal Público 21 Janeiro 2013

Autor: Hugo Daniel Sousa
 
Contingente de futebolistas portugueses no estrangeiro é cada vez maior. Liga portuguesa, por outro lado, é a terceira com maior percentagem de estrangeiros.

A emigração não é um fenómeno novo no futebol e jogar no estrangeiro sempre foi um objectivo de muitos jogadores portugueses, por razões desportivas e financeiras. Mas a tendência de emigrar está a acentuar-se no futebol em Portugal. Nesta temporada, já há quase tantos jogadores portugueses a alinhar nos outros campeonatos europeus (171) como na Liga portuguesa (180).


Esta é uma das principais conclusões da edição de 2013 do Estudo Demográfico, do Centro Internacional de Estudos de Desporto (CIES), que será apresentada nesta segunda-feira e a que o PÚBLICO teve acesso.

“Segui um bocadinho o conselho que Passos Coelho deu há um ano, para a gente emigrar, para ir buscar qualquer coisa lá fora”, justificou João Tomás, avançado que trocou recentemente o Rio Ave pelo clube angolano Recreativo de Libolo. Esta estratégia tem sido cada vez mais comum, a ponto de o contingente português nos outros 30 principais campeonatos europeus ter passado de 130 jogadores em 2011-12 para 171 atletas na presente temporada.


Portugal continua a ocupar o quinto lugar no ranking dos mais exportadores, apenas atrás do Brasil (515), França (269), Sérvia (205) e Argentina (188) – todos, à excepção da Sérvia, países bem mais populosos.

Uma análise mais detalhada ao destino dos portugueses mostra, por outro lado, que as razões financeiras serão as que mais pesam na hora de decidir pela emigração. É que o maior contingente joga em Chipre (62), que está longe de ser um campeonato de topo. Segue-se a Liga espanhola (24) e os campeonatos romeno (22) e búlgaro (13), outros dois de segunda linha.

A emigração das principais figuras do futebol português – e cada vez mais, também, de jogadores de equipas médias – deixa, por outro lado, mais espaço para os estrangeiros na Liga portuguesa, que continua a ser a terceira com maior percentagem de futebolistas oriundos de outros países (53,8%), apenas atrás de Chipre (74,2%) e Inglaterra (55,1%).

Um dado relativamente novo é que a média de idades dos estrangeiros que alinham em Portugal (25,5 anos) é inferior à dos jogadores locais (26,4). Números que comprovam a aposta cada vez mais frequente em jovens jogadores sul-americanos.


Outra curiosidade é o facto de a percentagem de estrangeiros que jogam pelas suas selecções (27,6%) ser superior à dos portugueses (15%). Algo que terá sido facilitado pela aposta em novos mercados da América do Sul, de que o peruano André Carrillo (Sporting) e o colombiano James Rodríguez (FC Porto) são bons exemplos.



A preferência dos clubes portugueses por jogadores de outros continentes está ainda bem espelhada num outro ranking que consta do Estudo Demográfico de 2013. Na lista dos dez clubes com mais futebolistas não europeus, constam seis emblemas nacionais, com o Benfica à cabeça (15 jogadores), seguido pelo Inter de Milão (15), FC Porto e Gil Vicente (ambos com 14).



Fonte: Estudo demográfico 2013, Centro Internacional de Estudos do Desporto

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Artigo de Reflexão: Marítimo, Portuguesa e Deportivo: histórias portuguesas no futebol da Venezuela

Desporto - Futebol
 
Tema: "Marítimo, Portuguesa e Deportivo: histórias portuguesas no futebol da Venezuela"

Artigo publicado in Jornal Público 12 Janeiro 2013

Autor: Marco Vaza
 
Três clubes com raízes portuguesas já se tornaram campeões. Só um deles sobreviveu até hoje.

É na Venezuela que reside uma das maiores comunidades portuguesas fora de Portugal. Estima-se que sejam perto de 450 mil os luso-venezuelanos no país de Hugo Chávez, muitos com origem no arquipélago da Madeira. A influência portuguesa na Venezuela também se estende ao futebol e não falamos de Danny, jogador do Zenit, ou de Leonardo Jardim, treinador do Olympiakos, ambos nascidos em famílias de emigrantes madeirenses na Venezuela e que acabariam por regressar a Portugal. Basta olhar para a lista de campeões e encontramos nomes familiares: Deportivo Portugués, Portuguesa FC e Marítimo.


Destes três clubes, que, entre si, conquistaram 13 títulos de campeão, apenas resta um, o Portuguesa FC, da cidade de Acarigua, no Noroeste do país. Com cinco títulos conquistados, o Portuguesa não tem nenhuma herança lusitana óbvia para além do nome (nem no emblema, nem nas cores da camisola, preto e vermelho), que advém da sua localização, no estado de Portuguesa, que, por sua vez, foi baptizado com este nome por causa do rio que atravessa o estado e que, segundo a herança popular, se chama assim porque, em tempos, uma mulher de Portugal se terá afogado nele.

Bastante documentadas estão as origens portuguesas do Deportivo e do Marítimo, sendo que o segundo provavelmente nunca teria existido sem o fim do primeiro.

Vamos à história: no auge da imigração do Sul da Europa para a Venezuela durante os anos 1950 e 60 do século passado, muitos foram os clubes formados por comunidades de imigrantes e os nomes identificavam as suas origens: Deportivo Español, Deportivo Itália, Deportivo Galicia, Deportivo Asturias, o Valência, o Unión Deportiva Canárias ou o Deportivo Portugués.

Fundado em 1952, o Club Deportivo Portugués, sediado em Caracas, rapidamente se transformou numa potência do futebol venezuelano. As cores vermelha e verde estavam no equipamento e no emblema (que era uma representação da bandeira de Portugal, com o escudo no meio). Foi quatro vezes campeão (1958, 1960, 1962 e 1967) e foi a primeira equipa do país a chegar às meias-finais da Taça dos Libertadores, mas, depois do último título, começou a entrar em declínio, com várias subidas e descidas, até que os seus órgãos directivos vieram a decidir acabar com a equipa de futebol profissional. Muitos dos seus jogadores e o treinador da altura transferiram-se para outra formação de origem portuguesa, também com sede na capital venezuelana, o Club Sport Marítimo.

Este Marítimo de Caracas, fundado em 1959, tem tudo a ver, na sua origem, com o Marítimo do Funchal, que tem mais de um século de existência (nasceu em 1910) e é a maior instituição desportiva da Madeira. Os equipamentos e os emblemas dos dois clubes são iguais. Mas, ao contrário do clube madeirense, que nunca foi campeão de Portugal, o seu homólogo venezuelano conquistou quatro títulos de campeão (1987, 1988, 1990 e 1993) e ganhou seguidores fora da comunidade luso-venezuelana. Mas também o Marítimo acabaria com o futebol profissional, em 1995.


Na Venezuela, há registos de apenas dois jogadores portugueses, segundo o site zerozero.pt. Um deles, Carlos Freitas, chegou a jogar no Marítimo do Funchal e foi internacional português sub-18 numa equipa onde estavam, entre outros, Rui Patrício, Fábio Coentrão e Daniel Carriço. Em Portugal, o zerozero lista 160 jogadores venezuelanos só em futebol de onze, mas quase todos com dupla nacionalidade e muitos em clubes da Madeira. Entre esta numerosa comunidade, o nome mais famoso é o de Jeffrén Suarez, extremo do Sporting e formado nas escolas do Barcelona, que nasceu em Ciudad Bolivar, mas tem nacionalidade espanhola.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Artigo de Reflexão: Ainda há clubes no mundo que só aceitam jogadores do "seu" país

Desporto - Futebol
Tema: "Ainda há clubes no mundo que só aceitam jogadores do "seu" país"

Artigo publicado in Jornal Público 26 Dezembro 2012

Autor: Marco Vaza
 
De Bilbau a Guadalajara, algumas histórias de protecção e nacionalismo no futebol, um fenómeno cada vez mais raro mas que ainda se mantém vivo nalguns emblemas
 
A 29 de Agosto de 1979, fez-se história no Estádio da Luz. Não marcou a conquista de nenhum troféu. Aliás, era um jogo de início de campeonato, em que o Benfica recebia o Vitória de Setúbal, uma vitória sem grande história dos "encarnados" por 5-1, com três golos de Nené. A parte histórica chega ao minuto 72. O técnico Mário Wilson mexe na equipa, tira Fernando Chalana e faz entrar o carioca Jorge Gomes da Silva Filho, o primeiro jogador estrangeiro a alinhar pelo Benfica. Poucos dias depois, em Vila do Conde, nova data histórica. Jorge Gomes tornava-se no primeiro estrangeiro a marcar pelo Benfica no triunfo por 3-0 sobre o Rio Ave.

Era o fim de uma era no Benfica. Acabava-se a tradição dos "encarnados" em ter apenas jogadores portugueses (metrópole e colónias), algo que estava na matriz do clube e que até estava definido nos estatutos. Essa regra mudara a 1 de Julho de 1979, numa famosa assembleia geral em que os sócios votaram esmagadoramente a favor (472 contra 62), após oito horas de discussão. Depois disto, contrataram-se nessa época Gomes ao Boavista e César ao América do Rio de Janeiro, que até valeu o triunfo na Taça desse ano com um golo na final frente ao FC Porto. Trinta e três anos depois, são raras as vezes em que o Benfica joga com um português no "onze" inicial e é raro ter um jogador convocado para a selecção nacional.

Estes comportamentos "proteccionistas" são cada vez mais difíceis de encontrar no futebol, mas a filosofia ainda é praticada nalguns clubes, de todo o mundo, de Guadalajara, no México, a Bilbau, no País Basco, passando por Quito, no Equador.

O maior exemplo será o do Athletic Bilbao, cuja política de utilizar apenas jogadores bascos, não necessariamente nascidos na região, funciona como uma forma de afirmação de uma identidade e de um nacionalismo.

Athletic Bilbao

 
 
A exclusividade basca não dura desde a fundação do clube, em 1889. Chama-se Athletic Club porque os seus fundadores eram operários e mineiros britânicos de Bilbau que se juntaram a bascos que haviam estudado e aprendido as regras do futebol em Inglaterra - Franco tentou limpar as origens britânicas do clube obrigando-o a mudar o nome para Atlético, mas a medida foi anulada quando o franquismo caiu. No início, havia jogadores ingleses e a exclusividade só entrou em prática a partir de 1912.

O conceito, que não está escrito nos estatutos do clube, tem evoluído de modo a manter um campo de recrutamento o mais abrangente possível sem trair a filosofia da coisa. Não é obrigatório que os jogadores tenham nascido nos territórios do País Basco espanhol (Biscaia, Guipúzcoa e Álava), Navarra e o País Basco francês (que teve apenas um representante no Athletic, Bixente Lizarazu, que seria campeão mundial com a selecção francesa).

Também são elegíveis jogadores que cresceram em Euskadi. Por exemplo, o defesa Fernando Amorebieta nasceu na Venezuela e é internacional venezuelano, mas pode jogar no Athletic porque os seus pais são bascos e ele cresceu na região. Há também o caso de Victor Monteiro Oliveira, que nasceu em Guimarães e que foi para o País Basco acompanhando os pais, imigrantes. Representa o clube desde 2008 e está nos juniores.

Apesar do conceito mais lato de nacionalidade basca, a verdade é que o clube depende muito da sua formação e do recrutamento noutros clubes da região, como o Osasuna, o Alavés e até a Real Sociedad, o grande rival regional - Etxeberria, por exemplo, foi contratado com 17 anos ao clube de San Sebastián. E a verdade é que, mesmo estando longe do topo do futebol espanhol, o Athletic é um dos três clubes que nunca desceram da I Divisão (os outros são Barcelona e Real Madrid), o quarto clube com mais títulos de campeão (oito) e o segundo que mais vezes ganhou a Taça do Rei (23, menos três do que o Barcelona e mais cinco que o Real).

Chivas Guadalajara

Como muitos clubes da América Latina, o mexicano Club Deportivo Guadalajara surgiu em 1906 por iniciativa de um imigrante europeu, neste caso belga, e adoptou as cores do clube preferido do seu fundador, o Club Brugge. As primeiras equipas tinham belgas, franceses, espanhóis e mexicanos, mas, dois anos depois, tomou-se a decisão de fazer alinhar apenas jogadores do país. Em mais de cem anos de história, o Chivas, apenas com mexicanos, tornou-se no clube mais popular do país e aquele que tem mais títulos de campeão no currículo (11).

O Chivas é mais purista do que o Bilbao nas suas medidas proteccionistas. Não admite jogadores naturalizados, nem mexicanos que joguem por outras selecções - como acontece com o internacional venezuelano Amorebieta. "Os jogadores mexicanos que, por nascimento, tenham a possibilidade de jogar pela selecção de outro país não entram nesta instituição", lia-se num comunicado recente do clube, depois de se ter falado que Johan Cruyff, na altura director desportivo do clube (foi despedido no início de Dezembro), queria utilizar jogadores naturalizados.

No mesmo comunicado, o Chivas, que, tal como o Bilbao, não aplica esta regra aos treinadores (o holandês John van"t Schip é quem ocupa o cargo), acrescenta que são elegíveis aqueles que a Constituição do país define como mexicanos: os que nasçam no território, seja qual for a nacionalidade dos pais; os que nasçam no estrangeiro filhos de pais mexicanos; os que nasçam a bordo de aviões ou embarcações mexicanas. Nestes parâmetros, o Chivas pode ter, por exemplo, jogadores nascidos a norte da fronteira, nos EUA, como Miguel Ponce, nascido na Califórnia. Jorge Vergara, dono do Chivas Guadalajara, quis instituir uma política de usar jogadores com herança mexicana no Chivas USA, clube baseado em Los Angeles que alinha na Major League Soccer.

El Nacional, de Quito

O Club Deportivo El Nacional, de Quito, é o segundo clube com mais títulos de campeão no Equador (13) e também aposta, exclusivamente, em jogadores nacionais, e isto acontece desde a sua fundação, em 1960. A política proteccionista do clube ficou definida por um dos seus fundadores, Hugo Enderica Torres, um general na reserva, e as origens militares continuam vivas até hoje, com a direcção do clube a ser composta apenas por membros das Forças Armadas do país. Em 2011, foi proposto em assembleia geral a integração de jogadores estrangeiros no Nacional, mas os sócios votaram contra. "Temos de fortalecer os nossos escalões de formação e é essa a razão de ser do nosso clube", dizia, na altura um dirigente do Nacional.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Artigo de Reflexão e Informação: Os títulos e recordes que há para ganhar e bater no desporto em 2013

Desporto - Calendário

Tema: "Os títulos e recordes que há para ganhar e bater no desporto em 2013"

Artigo publicado in Jornal Público 28 Dezembro 2012

Autor: Marco Vaza


Mesmo sem Jogos Olímpicos, nem Campeonatos da Europa ou Mundo de futebol, o próximo ano terá muito desporto. Qualificações para o Mundial 2014 e Mundiais de atletismo e natação são os pontos fortes.

Em 2012 houve Micheal Phelps a tornar-se no mais medalhado de sempre em Jogos Olímpicos, Usain Bolt a confirmar-se como o mais rápido de sempre, a Espanha a consolidar o seu estatuto como uma das melhores equipas de futebol de sempre e Lance Armstrong a ficar para a história como a maior fraude desportiva de sempre. Mas 2013 promete igualmente ser pródigo em protagonistas. Logo nos primeiros dias vamos ter a resposta a uma das perguntas que mais vezes foi feita em 2012: quem merece ser eleito o melhor futebolista, Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo?

Será já a 7 de Janeiro, em Zurique, que se vai ficar a saber quem leva a Bola de Ouro 2012. A fazer companhia a Messi e Ronaldo está Andrés Iniesta, eleito o melhor jogador do Euro 2012 dominado pela selecção espanhola (em 2011, o terceiro elemento foi Xavi Hernandez). Mas o prémio será discutido entre o argentino do Barcelona e o português do Real Madrid. Ambos já ganharam a distinção – Ronaldo em 2008 e Messi nos três anos seguintes. No prémio para os treinadores, também haverá um duelo tripartido entre Real Madrid, Barcelona e Espanha, com, respectivamente, José Mourinho, Pep Guardiola e Vicente del Bosque.


A selecção portuguesa vai continuar a sua campanha de qualificação para o Mundial 2014, que se realiza no Brasil. O percurso não tem sido famoso. A selecção de Paulo Bento soma duas vitórias, um empate (Irlanda do Norte) e uma derrota (Rússia) em quatro jogos, e está no terceiro lugar do Grupo F da zona europeia. Restam ainda seis jogos, mas o primeiro lugar, o único que dá o apuramento directo, parece difícil.


A Rússia tem dominado o apuramento e é mais razoável pensar que Portugal consiga chegar ao torneio através do play-off de apuramento, como aconteceu para o Mundial 2010 e Euro 2012 (ambos frente com à Bósnia). Para isso, terá de chegar ao segundo lugar, actualmente ocupado por Israel. Se tudo correr bem, Portugal será uma das 32 selecções presentes na Bahia para o sorteio dos grupos da fase final a 3 de Dezembro.

Sem Mundiais ou Europeus, há duas datas-chave no futebol internacional. Ainda em Janeiro, começa a Taça das Nações Africanas, organizada pela África do Sul. Na Europa, as competições europeias vão seguir o seu percurso normal até Maio, com a final da Liga Europa, em Amesterdão, e da Liga dos Campeões, em Londres. A única certeza é que o campeão europeu não será o mesmo do ano passado, já que o Chelsea, vencedor surpresa em 2012, não passou da fase de grupos.

 

No futebol nacional, se 2012 serve de indicador, a Liga vai ser disputada até ao fim. O Benfica entra em 2013 na frente, apenas porque tem mais um jogo que o FC Porto e, se ambos mantiverem o ritmo, as datas decisivas para a decisão do campeonato serão as dos confrontos entre as duas equipas para o campeonato: a 13 de Janeiro, na Luz, e a 12 de Maio, no Dragão, para a penúltima jornada. Como sempre, a Taça de Portugal fechará as “hostilidades” da temporada, a 26 de Maio.

 

Os próximos Jogos Olímpicos só serão em 2016, no Rio de Janeiro, mas 2013 vai ter competições mundiais de vários desportos olímpicos por excelência. Logo em Janeiro, a Espanha recebe o Mundial de andebol masculino, em que a França, actual detentora dos títulos mundial, europeu e olímpico, é o principal candidato.

Natação tem o seu Mundial

Em Julho, abre-se uma nova era na natação mundial, depois do fim da era Michael Phelps, que abandonou em competição após chegar às 22 medalhas em Londres 2012. Nos Mundiais de Barcelona, entre 19 de Julho e 8 de Agosto, há candidatos à sua sucessão (Ryan Lochte, Chad le Clos, Yannick Agnel), mas nenhum terá a capacidade para fazer um número semelhante à “bala de Baltimore” e conquistar oito medalhas de ouro - foi o que Phelps fez em Pequim 2008.

Na natação feminina, os olhos vão estar em cima da adolescente chinesa Ye Shiwen, que bateu um recorde mundial e um olímpico em Londres. A norte-americana Missy Franklyn e a lituana Ruta Meilutyte são os outros jovens fenómenos a ter atenção em Barcelona.

Portugueses em acção
Ao contrário da natação, o atletismo vai manter a sua principal figura de Londres. Nos Jogos britânicos, Usain Bolt afirmou-se como o melhor velocista de todos os tempos e repetiu os seus títulos em 100m, 200m e 4x100m. Entre 10 e 18 de Agosto, nos Mundiais de Moscovo, o jamaicano vai tentar confirmar que este ainda é o seu tempo, apesar da concorrência do seu compatriota Yohan Blake. Para além dos duelos na velocidade, a prova estará recheada de “estrelas”. Só para citar alguns, o britânico Mo Farah, ouro olímpico em 5000m e 10.000m, ou o queniano David Rudisha, autor de um extraordinário recorde do mundo nos 800m (o primeiro a baixar dos 1m41s, com 1m40,91s).

Os Mundiais de atletismo é uma competição em que Portugal terá aspirações, dependendo de quem for a Moscovo, mas os últimos anos têm provado que há mais atletas portugueses com possibilidades em outras modalidades. Entre 25 e 28 de Abril, Budapeste recebe os Europeus de judo e Telma Monteiro, quatro vezes campeã da Europa, encabeça as esperanças portuguesas, depois da desilusão em Londres (derrotada no primeiro combate).


Uma das revelações da comitiva portuguesa em Londres foi a equipa de ténis de mesa composta por Marcos Freitas, João Monteiro e Tiago Apolónia, que volta a estar em acção em 2013 nos Mundiais de Paris entre 3 e 20 de Maio e nos Europeus da Áustria, entre 4 e 13 de Outubro.

Os únicos medalhados portugueses em Londres, os canoístas Fernando Pimenta e Emanuel Silva, também vão estar em acção em 2013 nos Europeus de Montemor-o-Velho entre 12 e 14 de Junho e nos Mundiais de Duisburgo entre 21 e 25 de Junho.
 

Se, em 2012 se assistiu à queda da lenda desportiva Lance Armstrong (cujo único resultado válido na Volta à França passou a ser um 36.º lugar em 1995), em 2013 poderá assistir-se à confirmação de um novo dominador no Tour, o britânico Bradley Wiggins (que também foi campeão olímpico em contra-relógio). Será uma edição histórica, a 100.ª da maior competição velocipédica mundial.

 

Uma das competições mais previsíveis dos últimos anos tem sido o Mundial de ralis. O francês Sebastien Loeb venceu as nove últimas edições, mas 2013 irá coroar um novo campeão, porque Loeb só vai competir em quatro provas, abrindo caminho a homens como Sebastien Ogier ou Jari-Matti Latvala.

 

A Fórmula 1 em 2013 também promete ser um assunto disputado até à última corrida e os candidatos deverão ser os mesmo do ano passado. Sebastian Vettel, que se sagrou o mais jovem tricampeão de sempre, e Fernando Alonso, mais Lewis Hamilton, que se mudou para a Mercedes, ocupando o lugar de Michael Schumacher, que se retirou em definitivo da competição.

 

No motociclismo, há uma mudança que promete dar que falar: Valentino Rossi está de regresso à Yamaha e vai fazer equipa com o campeão mundial em título Jorge Lorenzo. Um facto a lamentar para Portugal, é que o país perde a prova do calendário internacional, que detinha á alguns anos.


Guimarães, Cidade Europeia Desporto 2013


A cidade de Guimarães vai acolher, durante o ano de 2013, 20 mil atletas e organizar mais de uma centena de eventos no âmbito de Guimarães Cidade Europeia do Desporto 2013.

Natação, atletismo, ginástica, patinagem artística, equitação, hóquei em patins, andebol, futebol, ciclismo, karaté e judo são algumas das modalidades a decorrer durante o ano.